"JK, um testemunho"
Autor: Nicolau Frederico de Souza
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Quando: 31/01/2006

Boa noite! Terça-feira, 31 de janeiro de 2006. Ano IX - Nº 2465 de terça-feira - Natal, RN - Brasil
Cena Urbana

Vicente Serejo
serejo@zaz.com.br
Outro dia, abri o computador, estava lá o fac-símile de um original, em duas páginas, de uma mensagem do presidente Juscelino Kubitschek. E um bilhete do meu amigo Nicolau, ou, por inteiro, Nicolau Frederico de Souza - mineiro, educado, uma excelente figura humana. Na sua generosidade, oferecia a mim o privilégio de noticiar o fato. Preferi desafiá-lo, ele que é sempre muito discreto: escreva um depoimento pessoal desse tempo vivido por você, em Brasília. Sobre o seu pai, Sr. Sebastião, um garçon, hoje ainda morando lá, com 91 anos; e sua mãe, D. Zulma, telefonista, já falecida. É uma história bonita. Ele escreveu. E vai na íntegra.
JK, UM TESTEMUNHO
Meu caro colega e amigo Serejo,
Nesses tempos de nostalgia da "era JK", com uma mini-série na televisão e sua bibliografia relançada, fico aqui refletindo sobre a sua crônica na edição deste JH , de sábado/domingo (28). Lá, você relata que o jornalista Murilo Melo Filho afirmou no livro que autografou no salão nobre do Palácio Potengi - "Tempo Diferente" - que "Hoje em dia é fácil, e até um galardão, fazer elogios a JK. Mas, naquele tempo, de duras cassações e de cruéis perseguições, enfrentando o ódio da ditadura militar, foi muito duro e muito difícil. E encerrando: "Só Deus e nós sabemos o quanto".
Este fato veio reforçar a minha intenção, provocada pela sua astúcia jornalística, após o seu gentil convite de aceitá-lo para apresentar "um depoimento pessoal, testemunhal, na dimensão de quem, de certa forma, viveu esse tempo, em Brasília. É bonita a história de sua mãe e do seu pai.", após enviar-lhe uma cópia da carta de despedida do presidente JK aos brasileiros (http://www.memorialjk.com.br), em janeiro de 1961, que encontrei no baú de minha família.
Meu caro Vicente, Murilo Filho tem toda a razão. Não foi fácil deixar de lado uma esperança que brotou no íntimo dos corações de meus pais quando se integraram ao "Volte JK, em 65!", pouco depois frustrada com a sua cassação e exílio político. Meu pai, Sebastião de Souza Pinto, natural de Dores do Indaiá, na região do Alto São Francisco, havia sido mandado pelo governador Benedito Valadares para aprender o ofício de garçon na cidade de Araxá, estância hidromineral localizada no Triângulo Mineiro. Valadares, como todo político, circulava muito na região e minha avó paterna, Ana, havia pedido a ele para "arrumar alguma coisa para ele", como era o costume na época entre os cabos eleitorais de um mesmo grupo político. E ele, segundo depoimento de meu pai, teria dito para minha avó: "Vou mandar este rapaz para Araxá. Lá estou construindo uma escola de hotelaria, a melhor do Brasil!".
Ele se referia ao Grande Hotel e Termas do Araxá, no Barreiro (http://www.ourominas.com.br/araxa), inaugurado em sua gestão como governador de Minas Gerais e no qual meu pai foi aluno concluinte da primeira turma (1945). Ignorava meu pai que em Araxá estava o elo de sua ligação ao futuro presidente da República. Primeiro, nas visitas com a família Kubitschek, na "estação das águas" - a época do veraneio no Nordeste - quando ele fazia parte da equipe de serviço, por recomendação de Valadares. Segundo, pelo seu casamento com minha mãe, Zulma Zema de Souza, telefonista e filha de imigrante italiano. E terceiro, pela sua ida em 1957 para a construção de Brasília, quando ele se encontrava em Belo Horizonte e recebeu o convite para trabalhar lá na antiga "Cidade Livre" (hoje, Núcleo Bandeirante), depois no Brasília Palace Hotel, Churrascaria do Lago, no Hotel Nacional e tantos outros depois.
Meu pai, hoje aposentado, com 91 anos de idade, morador permanente de Brasília, e minha mãe, falecida em 1992, após aposentar-se pelo Governo do Distrito Federal, foram testemunhas da frase do colega Murilo Filho "foi muito duro e muito difícil", pois após a cassação de JK, meu pai não teve mais trabalho, pois não havia se preocupado em "buscar um lugar ao sol" e permanecera ligado afetivamente ao grupo do ex-presidente. A sorte foi a de que minha mãe fora "nomeada" em 1959, quando lá chegara, para trabalhar no antigo Departamento de Telefones Urbanos e Interurbanos (DTUI) da então NOVACAP (empresa pública responsável pela construção na nova capital). Eles viveram, trabalharam e educaram a mim, minha irmã e meus três irmãos que continuam morando em Brasília, levando à frente os ideais e os exemplos de meus pais: persistência, fé em Deus e trabalho.
De minha parte, agradeço ao "nonô de D. Júlia", como os verdadeiros mineiros conhecem o saudoso presidente JK, pelas oportunidades que tive na cidade que ele criou com tanto carinho e dedicação: meus amigos de sempre, minha educação e minha formação profissional acadêmica (UnB/1972), construída a duras penas desde 1967 nas redações dos veículos de comunicação e nos órgãos governamentais, com muito trabalho, dedicação e seriedade.
Hoje, ao lado de Ruth e de meus filhos, Ricardo e Carolina, olho para estas páginas viradas na história da vida que a cada dia todos nós construímos, reverenciando nos 50 anos da posse de JK na presidência da República a memória desse grande brasileiro. O resto, você e Rejane conhecem e são testemunhas. Aceite o meu cordial abraço e a gratidão de sempre.
Do colega e amigo jornalista,
a) Nicolau Frederico de Souza